Little Walter. Um palhaço e a ilusão do circo

Lembro-me perfeitamente da última vez que fui ao circo.

Foi há 10 anos quando chegou à cidade um circo que trazia no cartaz quase todo o imaginário Disney. Mal os vi, já sabia que teria que levar a minha filha àquele circo.

Sentados, em expectativa, sentimos o desmoronar da ilusão do circo. Tal como eu, ela estava inundada com a tristeza que os artistas traziam no peito, no olhar e no jeito, e que a todo o custo procuravam ocultar.

Ao fim de 15 minutos a miúda pedia delicadamente para ir para casa. Ela estava triste e não quis pipocas.

Não voltei mais ao circo! A minha filha, sim!

Relembrar emoções ao mexer em coisas velhas

Lembrei-me desta história quando, recentemente, encontrei uma extensa reportagem, publicada na revista “Illustração Portugueza” de 8 de Fevereiro de 1908, sobre o palhaço Little Walter (Alexandre Ulrich) que actuava no Coliseu de Lisboa.

Olhei-o bem nas fotografias e sim! Ali estava!

O olhar desiludido e o sorriso que não passava de uma caricatura que revelava uma alegria triste sob a pasta branca, pontilhada de manchas avermelhadas, que lhe cobria o rosto e por baixo das grossas e arqueadas sobrancelhas riscadas acima dos olhos.

Afinal, talvez exista algo de dramático no circo. Talvez seja a caricatura da vida, com as suas dores, frustrações e alegrias.

Little Walter e a afirmação do palhaço “Auguste”

Nascido em Liège (Bélgica) em 1879, Walter iniciou a sua carreira, muito jovem, numa trupe acrobática chamada “Les Bourbonnel”.

Les Bourbonnel. Acrobates au tapis et jeux icariens.
Fotografia (C) RMN-Grand Palais (MuCEM) / Franck Raux
Museum of European and Mediterranean Civilisations
http://www.mucem.org/
Les Bourbonnel. Acrobates au tapis et jeux icariens. Fotografia (C) RMN-Grand Palais (MuCEM) / Franck Raux. Museum of European and Mediterranean Civilisations @ http://www.mucem.org/

Estreou-se no “Circus Renz” (circo alemão que esteve em cena entre 1842 e 1897) como acrobata e écuyer, sem que alguém desse conta dele.

Pagavam-lhe mal, 3 xelins por dia, e a sua situação era ingrata, pois, andava sempre assoberbado com ideias e o seu papel na trupe, era irrelevante não lhe permitindo extravasar toda a sua criatividade. Se ao menos lhe pagassem o valor que julgava merecer, algum proveito teria.

Fachada do "Circus Renz"
Fachada do “Circus Renz”. Domínio Público via Wikimedia Commons.

Propôs-se a ser clown, o seu grande sonho.

Investiu 4 xelins na compra de uma sobrecasaca preta, um enorme colete, umas calças extremamente largas e um par de botas militares, aquelas que utilizou durante toda a vida artística, e acabou por criar um novo tipo de palhaço “Auguste”.

Terá aperfeiçoado as suas caricaturas com o inglês Dan Leno, sendo evidente, em toda a sua carreira, a influência dos comediantes ingleses, senão mais por ter trabalhado no “Circus Renz” com o acrobata e écuyer Tom Belling, na trupe desde 1869, e que viria a ser o primeiro palhaço “Auguste” e aquele que terá passado a matriz do género a Walter.

Tom Belling era filho de um mestre de equitação britânico, Frederic Belling, que se formou como acrobata equestre com Jacques Tourniaire, (…), antes de partir para a América, onde criou o “Hyppodrom Fred Belling”.

Nascido em Filadélfia a 24 de abril de 1843, Tom treinou equitação e acrobacias equestres.

Markita Maynard. La naissance de l’Auguste @ Les Arts de Cirque.

O homem por detrás de Little Walter era uma pessoa em constante hiperactividade criativa e de improvisação. Procurava inspiração nas personagens do dia-à-dia, revelando-se exímio nos papéis femininos que eram uma das suas melhores e apreciadas transformações.

Com Walter, o palhaço “Auguste” vestido com roupa de gala começou a perder a sua relevância. Era monótono e o público queria ser surpreendido com algo novo.

Foottit et Chocolat, uma das mais famosas duplas de palhaço e auguste, numa gravação de 1897. Publicado por Spectacles Sélection no Youtube.

As constantes experiências de Walter ofereciam essa variedade, não existindo limites. Aparecia com fatos aos quadrados, culotes de fundo flácido e calças com pernas entrelaçadas, exibindo um estilo dândi decadente, de elegância ridícula e estrondosa.

Little Walter como palhaço “Auguste”. Fotografia publicada em BnF – Encyclopédie des arts du cirque.

De certo modo Walter caricaturizou o palhaço “Auguste” nas pistas de circo e, para muitos autores como Auguste Rémy, Little Walter foi o “primeiro Auguste cuja originalidade superou o palhaço”.

As múltiplas personagens de Little Walter.
As múltiplas personagens de Little Walter. Montagem a partir de fotografias publicadas na “Illustração Portugueza” de 3 de Fevereiro de 1908.

Segundo o relato de Walter, tudo aconteceu durante os 10 anos (1896 e 1906) de parceria entre Little Walter e Antonet, contando com uma passagem pelo “The Barnum & Bailey Circus Greatest Show on Earth”, de James Anthony Bailey, que fez uma digressão europeia entre 1900 e 1902.

Ambos desenvolveram, nesse período, um conjunto de peças humorísticas que se tornaram referência para as gerações seguintes como, por exemplo, “Kubelick II e Rubinstein”, “Hamlet”, “Le Clariniste” ou “Le Soldat”.

Cartaz do "The Barnum & Bailey Greatest Show on Earth" de 1902
Cartaz do “The Barnum & Bailey Greatest Show on Earth” de 1902, publicado por Dominique Denis em Circus Parade (2016).

Talvez pelo cansaço, ou por algumas incompatibilidades com a metodologia obsessivamente controladora de Antonet, Little Walter decide abandonar a dupla e estabelecer o seu próprio espectáculo.

Mesmo assim a influência de Little Walter permaneceu junto dos parceiros de Antonet.

Quando Antonet começou a trabalhar com Grock, em 1906, encontrou o parceiro ideal, pois ao contrário de Walter, partilhava do mesmo cuidado pela planificação, precisão e detalhe nos ensaios e apresentações.

Walter era extremamente versátil e possuía uma formidável capacidade de improviso, adaptando-se ao público, entrando muitas vezes em conflito com os conceitos de Antonet.

Quando me apresento pela primeira vez deante de um público que não conheço, começo por tactear, por apalpar, cuidadosamente…

Little Walter na “Illustração Portugueza” de 3 de Fevereiro de 1908.
Beby (Aristodemo Frediani), Antonet (Umberto Guillaume) e Grock (Adrien Wettach)
Da esquerda para a direita: Beby (Aristodemo Frediani), Antonet (Umberto Guillaume) e Grock (Adrien Wettach) em 1931.
Fotografia publicada em BnF – Encyclopédie des arts du cirque. © Photo studio Henry Manuel / Bibliothèque nationale de France.

Nem Antonet, nem Grock eram ainda famosos. Contudo, Antonet tomou o papel dominante. Grock, menos experiente, fez a sua aprendizagem substituindo Little Walter e, nos registos fotográficos, é muito fácil confundir os dois.

A cópia era quase perfeita. De facto Grock pode ter sido o Little Walter que Antonet sempre desejou: metódico, conservador e obediente.

Little Walter em Portugal. Um início e um fim

Embora tenha actuado em Portugal pela primeira vez no ano de 1897, no teatro D. Affonso (Porto), em 1908 Little Walter era já uma das maiores atracções do Coliseu de Lisboa com a patonímia “Walter Aviateur”.

Entrada do Teatro D. Affonso, que existiu na Rua Alexandre Herculano, no Porto.
Fotografia publicada no blogue Porto de Antanho (2017).
Edifício de Real Colyseu de Lisboa (1908).
Edifício de Real Colyseu de Lisboa (1908).
Fotografia publicada no blogue Lisboa de Antigamente (2015)

Na entrevista à revista “Illustração Portugueza” descreve-se como um “showman” em ascensão, cheio de sonhos e objectivos.

Casado com Emilie Lecusson, francesa nascida em Coimbra, com que teve dois filhos, acabou por estabelecer laços profundos com a cidade de Lisboa.

Adoro Lisboa, porque sei que tenho em cada espectador um amigo e dá-me a impressão que trabalho na minha terra. Já considero Portugal como a terra onde nasci, porque, por muitos laços de família, eu sou português. A minha mulher nasceu em Coimbra, meu filho (…) nasceu em Lisboa…

Little Walter na “Illustração Portugueza” de 3 de Fevereiro de 1908.
Emilie Lecusson
Emilie Lecusson
Little Walter com os filhos.
Little Walter com os filhos.
Fotografias publicadas na “Illustração Portugueza” de 3 de Fevereiro de 1908

De um momento para o outro o mundo virou-se do avesso e os ventos de guerra sopraram avassaladores, levando a vida de milhões de jovens, e marcando o início do declínio da carreira de muitos artistas, incluindo a de Little Walter.

No dia 7 de Novembro de 1914, Little Walter estava em Bordéus de onde escreveu uma carta ao seu amigo Francisco Cerejo, de Lisboa. Há muito tempo que não tinha notícias do seu filho Nené que, meses antes do início da guerra, partira para a Bélgica para ficar ao cuidado de um tio.

Contou nessa carta que iria partir para Paris e para a guerra querendo vingar tudo o que os alemães lhe haviam roubado.

“Diz a todos que o Walter não vai fazer mais palhaçadas. Já não é o intermédio militar que vou fazer. Agora, vou ser militar de verdade, porque os alemães roubaram-me tudo, a minha pátria, os meus pais e o meu filho. Vou vingar o sangue dos meus irmãos. Vou matar ou morrer. Lembra-te algumas vezes de mim, que sempre fui teu amigo.

Bordéus, 7 de Novembro. Little Walter “

Ricardo Marques (2014). “1914, Portugal no ano da Grande Guerra“. Oficina do Livro.

Após a I Guerra Mundial faz várias épocas no “Cirque d’ Hiver” em Paris, dirigido por Gaston Desprez, com Ilès, E.P. Loyal e o seu filho Joe Walter.

Acabou por voltar a Portugal.

Alugou uma casa na rua da Glória, em Lisboa, dedicando-se às tournées do seu “Circo Music Hall” pelas cidades e vilas de Portugal.

Podemos ler na revista “Ilustração”, de 16 de Junho de 1937, que Walter recebeu a comenda da Benemerência atribuída pelo Governo português pelas suas actuações nos asilos e hospitais infantis, à qual somou a medalha de ouro da cidade do Porto.

Little Walter nos anos 30 do século XX.
Little Walter nos anos 30 do século XX.
Fotografia publicada na revista “Ilustração” de 16 de Junho de 1937.

No mês de Abril de 1937 partiu para uma nova tournée e adoeceu em Abrantes.

Em Castelo Branco o seu estado de saúde agravou-se e o seu genro Geo, – casado com a sua filha mais velha, Elena Walter -, ainda tentou arranjar-lhe um internamento num hospital de Lisboa.

Já não havia nada a fazer. O sorriso de Little Walter apagou-se e o pano do “Circo Music Hall” caiu.

Morreu em Castelo Branco em Junho de 1937, pobre, mas rodeado por toda a família que, com ele, vivia de entreter e fazer rir os outros.

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