A 1 de Fevereiro de 1908, D. Carlos I e o Príncipe Real foram assassinados no Terreiro do Paço. A tragédia que deveria ter abalado Portugal encontrou indiferença. O povo não usava luto, não havia revolta. Esta frieza revelou algo irreversível: um país que já não reconhecia os seus reis.

Há fotografias de Janeiro de 1908 que mostram a Família Real Portuguesa em Vila Viçosa. D. Carlos e os filhos sorriem entre sobreiros, D. Amélia posa junto aos convidados, todos parecem felizes sob o sol de inverno alentejano. São imagens publicadas nas revistas ilustradas da época — aquele tipo de fotografia que aristocratas gostavam de colecionar como prova de dias bem passados.
Pergunto-me se, ao olharem para aquelas imagens semanas depois, alguém terá visto ali sinais. Pormenores que ninguém notou. Uma sombra, um olhar desviado, qualquer coisa.
Provavelmente não. Porque a tragédia raramente se anuncia.
Aqueles foram os últimos dias felizes da monarquia portuguesa. A morte esperava-os em Lisboa, no Terreiro do Paço, numa tarde ensolarada de Fevereiro.
Como se perde um reino.
D. Carlos I herdou um trono em momento delicado. Subira ao trono em Outubro de 1889. Três meses depois, em Janeiro de 1890, chegou o ultimato britânico.
Portugal alimentava o projeto de ligar Angola a Moçambique através dos territórios intermédios — o chamado “Mapa Cor-de-Rosa”, apresentado na Conferência de Berlim. Esse projeto cruzava-se diretamente com a ambição britânica de ligar o Cabo ao Cairo. O Reino Unido exigiu a retirada imediata das forças militares de Serpa Pinto desses territórios. O governo português cedeu. Não havia alternativa real — o reino estava em falência económica, evitar guerra com o mais antigo aliado parecia sensato.

Mas a cedência criou aquilo que Jorge Couto chamou uma «erosão irreversível no prestígio das instituições monárquicas». Aos olhos da opinião pública, o rei — jovem, recém-chegado ao trono — revelava-se «totalmente incapaz de defender os interesses do país» (Couto 2008 p. 11).
Começar um reinado com uma humilhação nacional é mau augúrio. D. Carlos nunca recuperou dessa marca inicial.
A 31 de Janeiro de 1891, houve uma tentativa de revolta republicana no Porto. Foi contrariada. Mas o sinal estava dado: os ideais republicanos ganhavam força junto dos operários e nos meios urbanos.
O que se seguiu foi uma sucessão de crises. Portugal declarou falência em 1892. Voltou a declarar em 1902. Distúrbios industriais, antagonismo socialista, críticas ferozes da imprensa à monarquia. D. Carlos — homem culto, inteligente — era visto por muitos como rei dado a extravagâncias, distante dos problemas reais do povo. A vida miserável de tantos portugueses contrastava com o estilo de vida do monarca, que «participava em numerosas actividades sociais em que convivia apenas com as elites» (Couto 2008 p. 12).

Há aqui uma ironia cruel: o pai de D. Carlos, D. Luís I, fora apelidado “o Popular” precisamente porque criara uma ligação empática com o povo. O filho não conseguiu. Ou não soube. Ou não teve tempo.
O erro que custou uma coroa.
Em resposta às crises, D. Carlos nomeou João Franco como primeiro-ministro e aceitou a dissolução do parlamento. Franco prometia uma política de “vida nova” — moralização, ordem, progresso.

A gravidade da situação era evidente. A família real decidiu regressar a Lisboa no dia seguinte.
Consideremos o que isto significa: um rei que assina decretos de deportação enquanto está de férias em Vila Viçosa, e depois regressa à capital onde os ânimos fervem. Não é imprudência, exatamente. É o cálculo político de alguém que pensa controlar a situação.
O que se seguiu foi censura à imprensa, perseguição a dissidentes, repressão policial crescente. Franco procurava impor ordem num país que já não acreditava na ordem.
No dia 28 de Janeiro de 1908, vários republicanos armados juntaram-se perto do Elevador da Biblioteca. Foram denunciados, presos, acusados de conspiração. Dois dias depois, em Vila Viçosa, o Ministro da Justiça visitou D. Carlos e levou-o a assinar um decreto: os presos seriam deportados.

Uma viagem tranquila para o desastre.
A 1 de Fevereiro, a Família Real percorreu o Alentejo de comboio. Viagem tranquila, apenas marcada por um pequeno descarrilamento perto de Casa Branca que atrasou a chegada.

Atravessaram o Tejo no vapor D. Luís. Na Estação Fluvial esperavam-nos o Infante D. Manuel, parentes, amigos, João Franco. Subiram aos coches. O cortejo começou a desfilar pelo Terreiro do Paço.

A tarde estava calma. Sol de inverno, morna, o rio Tejo tão limpo que parecia cristal. O cortejo avançou paralelo ao rio, cortou à esquerda, passou à frente dos Ministérios.
Pouco antes da rua do Arsenal, o cenário idílico desfez-se.
Tudo se perde em segundos.
Manuel dos Reis da Silva Buiça surgiu da praça com uma espingarda. Disparou contra a carruagem.
Quase de imediato, do outro lado, Alfredo Luís da Costa disparou um revólver.



D. Carlos tombou fulminado. O Príncipe Real Luís Filipe, ferido mortalmente. D. Amélia debatia-se em pé na carruagem, procurando salvar o marido e os filhos.
A escolta real, surpreendida. O cocheiro reagiu, levou a carruagem pela rua do Arsenal, procurando refúgio no Arsenal da Marinha.
Tarde demais. Os óbitos foram declarados no local.
Há algo desconcertante na rapidez. Segundos. Tiros. Um rei morto, um príncipe moribundo, uma rainha desesperada. E depois?

O silêncio de um país.
A notícia espalhou-se rapidamente. Chegou às embaixadas, às capitais mundiais. O mundo reagiu com choque. As manifestações de pesar sucederam-se, organizaram-se exéquias um pouco por todo o lado.
Portugal era, subitamente, o foco de todas as atenções. Repórteres foram despachados para Lisboa.
E encontraram algo estranho.
O director do jornal espanhol ABC escreveu: «O povo português parece que acolheu com total indiferença a morte do seu monarca. E parece também que essa indiferença se alarga a todos…»
O correspondente do Le Matin partilhava o espanto: «Impressionou-me, porém, aqui, que o decreto determinando um grande luto geral de dois meses, parece unicamente observado pela alta sociedade ou por pessoas que desempenham cargos oficiaes.»


Pensemos nisto: um rei é assassinado à luz do dia, no centro da capital, e a população… não reage. Não há luto generalizado. Não há revolta. Há indiferença.
Guerra Junqueiro, numa carta ao jornal Norte, foi ainda mais longe. Angustiado pela morte do príncipe, lamentava “de olhos enxutos” a morte do monarca: «Não mataram o rei: suicidou-se. O rei era um monstro maléfico, perturbador, consciente de quatro milhões de criaturas. Se eu pudesse matá-lo em segredo, de longe, da minha cama, com o pensamento, não o mataria. Pela verdade, tenho a coragem de acusar. Talvez chegasse, não sei bem, até à coragem de morrer. Matar, não mataria nunca.» (Junqueiro 1908).
É uma frase extraordinária. Condena o rei, mas recusa a violência. Admite que não o mataria, mas celebra quem o fez. Resume a ambiguidade moral de uma época.
A “inacessibilidade” do rei não permitira criar ligação empática com o povo. Mas o erro maior fora manter João Franco demasiado tempo no poder. Custou-lhe a vida. Dois anos depois, custaria o trono ao filho.
Rei morto, rei posto.
Do atentado saiu ligeiramente ferido o Infante D. Manuel. De imediato, foi proclamado Rei de Portugal.
No diário que começou a escrever logo após a tragédia, D. Manuel revela toda a sua tristeza e ressentimento. Sentia-se traído por João Franco que lhe havia escrito garantindo que tudo estava sossegado: «O João Franco escreveu-me então uma carta que eu tenho a maior pena de ter rasgado, porque nessa carta dizia-me que tudo estava sossegado e que não havia nada a recear! Que cegueira!»
Que cegueira, de facto.



O primeiro acto do novo rei foi dissolver o governo de João Franco. Franco “fugiu” para Paris, justificando o fracasso com a sua “impossibilidade de prever o futuro”. Iniciou-se uma tentativa de reconciliação: anulação do decreto de deportação, pacificação, tentativa de normalidade.
Mas aquela tarde de 1 de Fevereiro abrira uma ferida demasiado profunda.
O que morreu naquela tarde.
A indiferença de um país perante a morte do seu rei não é um pormenor estatístico. É sintoma de algo irreversível.
Dois anos depois, em 5 de Outubro de 1910, a República seria proclamada. D. Manuel II, cognominado “o Patriota” — ironia do destino — partiria para o exílio em Londres, onde morreria em 1932.
O capítulo monárquico de Portugal encerrara-se naquela tarde ensolarada no Terreiro do Paço. Não com pompa, não com glória, não sequer com revolta popular. Com tiros, silêncio e a estranha frieza de um país que já não reconhecia os seus reis.
Recordo as fotografias de Vila Viçosa. Aqueles sorrisos entre sobreiros, aquela luz de Janeiro, aquela sensação de segurança aristocrática que transparece das imagens.
Tudo isso morreu numa tarde. Em segundos.
E o que me interroga não é tanto a violência — a história está cheia de reis assassinados. É a indiferença. Um país inteiro que assiste ao fim de séculos de monarquia e… não sente nada.
Talvez seja essa a verdadeira tragédia de 1 de Fevereiro de 1908.
Referências
Alves, F. das N., & Monico, R. (2016). O regicídio português nas páginas da imprensa rio-grandina. Coleção Documentos.
Couto, J. (2008). 1908: do Regicídio à ascensão do Republicanismo – mostra bibliográfica. In M. Rêgo (Ed.), Do Regicídio à ascensão do Republicanismo. Biblioteca Nacional de Portugal – Ministério da Cultura.
D. Manuel II. (1908). Diário de D. Manuel II: Notas absolutamente íntimas. Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
Junqueiro, G. (1908, 15 de Fevereiro). Carta de Guerra Junqueiro. Jornal de Cambra, p. 2.
Noronha, E. de. (1908). A tragédia de Lisboa. Serões: Revista Mensal Ilustrada, 32, 127–151.
O regicídio. (1908). Le Petit Journal. Fundação Mário Soares / Colecção Fundação Mário Soares/António Pedro Vicente.
Semana trágica. (1908a). Illustração Portuguesa (2.ª Série), 105, 242–256.
As suas Magestades em Vila Viçosa. (1908b). Illustração Portuguesa (2.ª Série), 102, 156–160.
S. N. (1908c, 5 de Fevereiro). Correspondência. Le Matin.
