Ilustração de câmara fotográfica Nikon vintage com objectiva grande

Nikon FE10. O objeto que ficou comigo

Com uma Nikon FE10 simples, o autor descobriu formas únicas de ver o mundo, transformando momentos banais em memórias poéticas e transmitindo essa visão especial às filhas com um olhar intencional e paciente.

PONTOS A RETER

Descoberta da fotografia como forma de ver o mundo

O autor entendeu que a fotografia permite dar novos sentidos ao mundo por meio do enquadramento e das ferramentas da câmara.

Valorização da paciência e do processo mecânico

A Nikon FE10 exige espera e revela que o ato fotográfico é um processo intencional e demorado, diferente da fotografia digital instantânea.

Transformação do olhar sobre o belo

Através da câmera, o autor aprendeu a encontrar poesia e beleza em objetos desgastados, ruínas e detalhes do cotidiano.

Transmissão do hábito e visão às filhas

O instrumento deixou de ser do autor para que suas filhas compartilhem o mesmo princípio de multivisão, capturando fotos com intenção e interpretação.
Conteúdo IA

A última metade dos anos 90 passei-a em Marco de Canaveses. Na altura, aquela grande aventura de ficar entregue a mim próprio, longe de casa e com o dinheiro contado, tornou-se num dos períodos mais felizes da minha vida.

Deste tempo guardo um objeto muito especial: uma máquina fotográfica Nikon FE10. Do ponto de vista técnico, não é, de longe, o melhor modelo da Nikon. É um mero modelo mecânico, semiprofissional de entrada, o mais básico. Mas foi com ela que compreendi que o mundo tem muitas formas de ser visto.

Anúncio de alça de nylon para câmara fotográfica K&F Concept

Nas aulas de fotografia, aprendemos a perspetivar e a enquadrar a realidade num pequeno retângulo. Aprendemos que um fragmento do mundo, quando delimitado pelo nosso olhar, ganha uma vida nova pela simples supressão do que o rodeia. A partir daí, é através da articulação entre o nosso posicionamento físico — o enquadramento e a distância — e as ferramentas da própria câmara — a exposição, o tempo e a profundidade de campo — que lhe conseguimos atribuir um novo sentido.

Através da lente, o nosso olhar passa a ser intencional, propositado. A pessoa, a paisagem, o edifício ou o objeto assumem uma dimensão diferente.

Esta “multivisão” do mundo, com e sem lente, banal ou com propósito, permitiu-me perpetuar momentos relevantes da minha vida através desses pressupostos. De algum modo, moldou formas de pensar e de me posicionar na vida.

Além de criar memórias de família, de amigos e de sítios, permitiu-me reencontrar o belo quando tudo à volta parecia feio. Ensinou-me a encontrar poesia na ruína, no velho e no desgastado. O pôr do sol, a espuma da onda, a ruína histórica, a parede com tinta descascada ou o rosto de alguém passaram a ter uma expressão íntima e pessoal.

Já não utilizo esta câmara Nikon. Ofereci-a às minhas filhas, que hoje a utilizam com parcimónia. Compreendem o processo mecânico e a necessidade da espera, essa paciência de só ver o resultado após o rolo ser revelado. Mas, mais importante do que isso, vejo que com esta Nikon partilham desse mesmo princípio de “multivisão”. Os registos que fazem com ela são diferentes dos que captam com o telemóvel: revelam intenção, interpretação e uma demora própria diante das coisas.

No fundo, a Nikon deixou de ser minha para cumprir um novo propósito. Mais do que o mecanismo básico que me acompanhou nos anos noventa, o que ficou foi o hábito de procurar sentido nos fragmentos e beleza no que parece gasto. Ver esse mesmo olhar nas mãos das minhas filhas é o melhor enquadramento que aquela velha máquina fotográfica me podia ter dado. O objeto mudou de mãos; a lente, essa, continua a ser a mesma.

Artigos Relacionados

O Corpo Invisível do Tempo: Cartografias do “Todo Excecional”

O “todo excecional” do património cultural revela-se na união complexa entre objetos, memórias, afetos e contradições, transformando espaços abandonados em relicários vivos da nossa história…

Little Walter: Quando o Riso Esconde a Tristeza

Little Walter revolucionou a arte circense ao transformar o palhaço Auguste numa personagem imprevisível e profundamente humana. Da pobreza ao estrelato, da guerra à saudade,…
Sugestão IA