PONTOS A RETER
Contexto político delicado
D. Carlos iniciou o reinado sob humilhação com o ultimato britânico de 1890 e enfrentou crises económicas e sociais contínuas que minaram a confiança nas instituições monárquicas.Detalhes do regicídio de Lisboa
Em 1 de fevereiro de 1908, D. Carlos I e seu herdeiro foram assassinados no Terreiro do Paço por republicanos ligados à Carbonária, com consequências imediatas para a monarquia.Reação ambígua da população
O país reagiu com aparente indiferença à morte do rei, ao passo que celebrou discretamente os regicidas, refletindo uma crise profunda na relação entre povo e monarquia.Fim acelerado da monarquia
O regicídio acelerou a queda da monarquia ao deixar o trono a um jovem rei de 18 anos sem apoio político, culminando na proclamação da República em 1910.Há fotografias de Janeiro de 1908 que mostram a Família Real portuguesa em Vila Viçosa. D. Carlos e os filhos entre sobreiros, D. Amélia junto aos convidados, todos a sorrir sob o sol de inverno alentejano.
Pergunto-me se alguém terá voltado a olhar para elas, semanas depois do regicídio de 1 de fevereiro de 1908, à procura de sinais. Uma sombra, um olhar desviado, qualquer coisa.
Provavelmente não. A tragédia raramente se anuncia.
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Poucas semanas passadas, o regicídio de Lisboa mudaria para sempre o destino da Coroa portuguesa. Aqueles foram os últimos dias tranquilos da monarquia portuguesa. A morte esperava-a na capital, no Terreiro do Paço, ao fim de uma tarde soalheira de Fevereiro.
E o que me interroga, ainda hoje, não é a violência. A história está cheia de reis assassinados. É o que aconteceu — ou não aconteceu — nos dias seguintes.
O que foi o regicídio de Lisboa?
O atentado de 1 de Fevereiro de 1908.
O regicídio de Lisboa foi o assassinato do rei D. Carlos I e do príncipe real D. Luís Filipe, mortos a tiro no Terreiro do Paço quando a família regressava de Vila Viçosa. Seguiam numa calèche aberta, após terem atravessado o Tejo e desembarcado no cais fluvial, a caminho do Paço.
Quem morreu e quem sobreviveu?
D. Carlos I reinava desde Outubro de 1889. D. Luís Filipe, com 20 anos, era o herdeiro preparado para lhe suceder. Faleceram ambos naquela tarde.
D. Amélia de Orleães saiu ilesa. O infante D. Manuel, ferido num braço, tornar-se-ia rei nesse mesmo dia, aos 18 anos, e seria o último rei de Portugal.
Onde aconteceu?
O Terreiro do Paço — a atual Praça do Comércio — era o espaço onde a monarquia se mostrava: a praça aberta ao rio, as arcadas, os ministérios, a chegada oficial de quem vinha de fora. Matar o rei ali, à vista de quem passava, era matá-lo duas vezes. Uma na pessoa, outra na instituição.
O contexto político antes do regicídio de Lisboa.
Um reinado que começou com uma humilhação.
D. Carlos herdou o trono num momento delicado. Três meses depois da subida ao poder, em Janeiro de 1890, chegou o ultimato britânico.
Portugal alimentava o projeto de ligar Angola a Moçambique pelos territórios intermédios — o “Mapa Cor-de-Rosa” —, que colidia frontalmente com a ambição britânica de ligar o Cabo ao Cairo. Londres exigiu a retirada das forças de Serpa Pinto. O governo português cedeu. Não havia alternativa: o reino estava em falência e evitar uma guerra com o mais antigo aliado parecia o mais sensato.

Sensato, talvez. Mas caro. A cedência provocou aquilo a que Jorge Couto chamou uma “erosão irreversível no prestígio das instituições monárquicas”; aos olhos da opinião pública, o rei jovem, recém-chegado ao trono, revelava-se incapaz de defender os interesses do país (Couto, 2008)Couto, J. (2008). 1908: do Regicídio à ascensão do Republicanismo - mostra bibliográfica. Em M. Rêgo (Ed.), Do Regicídio à ascensão do Republicanismo..
Começar um reinado com uma humilhação nacional é mau augúrio. D. Carlos nunca se livrou dessa marca inicial.

Seguiu-se uma sucessão de crises. Portugal declarou falência em 1892. Voltou a declará-la em 1902. Distúrbios industriais, antagonismo socialista, críticas ferozes da imprensa à monarquia. D. Carlos — homem culto, inteligente — era visto por muitos como um rei dado a extravagâncias, distante dos problemas reais do povo. A vida miserável de tantos portugueses contrastava com o estilo de vida do monarca, que “participava em numerosas actividades sociais em que convivia apenas com as elites” (Couto, 2008, p. 12)Couto, J. (2008). 1908: do Regicídio à ascensão do Republicanismo - mostra bibliográfica. Em M. Rêgo (Ed.), Do Regicídio à ascensão do Republicanismo..
Há aqui uma ironia trágica. O pai de D. Carlos, D. Luís I, ficara conhecido como “o Popular” precisamente por ter criado uma ligação empática com o povo. O filho não conseguiu. Ou não soube. Ou não teve tempo.
João Franco e a ditadura administrativa.
Em resposta às crises, D. Carlos apostou em João Franco. O novo governo formou-se a 2 de Maio de 1907 e, oito dias depois, dissolvia o parlamento e passava a governar por decreto.
O que se seguiu foi previsível: censura à imprensa, dissolução de câmaras e juntas eleitas, demissões de funcionários, perseguição a republicanos e também a monárquicos não afetos ao rei. Somou-se ainda o escândalo dos adiantamentos à Casa Real, que atingiu diretamente a figura do monarca (Porto Editora, s.d.)Porto Editora. (s.d.). João Franco. Em Infopedia. Obtido https://www.infopedia.pt/artigos/$joao-franco.

Franco procurava impor ordem num país que já não acreditava na ordem. E, ao apoiá-lo até ao fim, D. Carlos passou de árbitro do sistema a parte interessada. Deixou de ser o rei de todos.
Republicanos, Carbonária e a intentona do Elevador.
O final de Janeiro de 1908 foi um mês crispado. Os republicanos radicalizavam o discurso contra Franco e contra o rei que o chamara; setores monárquicos afastados do poder também não poupavam críticas (Samara & Tavares, 2008)Samara, M. A., & Tavares, R. (2008). O Regicídio. Tinta da China..
A 28 de Janeiro, republicanos e dissidentes progressistas tentaram um golpe que ficou conhecido como a intentona do Elevador da Biblioteca. Falhou. Mas levou à prisão de vários dos dirigentes republicanos mais populares — entre eles Afonso Costa, António José de Almeida, João Chagas e Egas Moniz («A Ferro e Fogo. Os presos políticos», 1908)A Ferro e Fogo. Os presos políticos. (1908, fevereiro 10). Illustração Portuguesa, (103)..

Dois dias depois, em Vila Viçosa, o ministro da Justiça visitou D. Carlos e levou-o a assinar o decreto de 31 de Janeiro, lido pela Lisboa popular e republicana como a ameaça de deportar os seus líderes para as colónias.
Um rei que assina decretos de deportação enquanto passa férias, e decide regressar no dia seguinte à capital quando os ânimos fervem. Talvez não seja bem imprudência, mas o cândido cálculo político de quem entregou a terceiros o controlo da situação.
Como aconteceu o regicídio de Lisboa.
O regresso de Vila Viçosa.
A 1 de Fevereiro, a Família Real atravessou o Alentejo de comboio. A viagem foi tranquila, apenas marcada por um pequeno descarrilamento perto de Casa Branca, que atrasou a chegada quase uma hora.

Cruzaram o Tejo de vapor. Na estação fluvial esperavam-nos o infante D. Manuel, familiares, amigos e João Franco. Subiram aos coches. O cortejo começou a desfilar pelo Terreiro do Paço, com uma escolta que se resumia aos batedores protocolares e a um oficial a cavalo.

A tarde estava calma. Sol de inverno, morno, o rio limpo. O cortejo avançou paralelo ao Tejo, cortou à esquerda, passou em frente dos ministérios.
Pouco antes da Rua do Arsenal, o cenário desfez-se.

Manuel Buíça e Alfredo Luís da Costa.
Manuel dos Reis Buíça surgiu com uma carabina e disparou contra a carruagem. Quase em simultâneo, do lado oposto, Alfredo Luís da Costa disparou uma arma curta. Ambos foram mortos no local pelas forças policiais.
Não eram loucos, nem desconhecidos sem razões. Eram livres-pensadores, sócios da Associação do Registo Civil, republicanos ligados à Carbonária. Dias antes, Buíça escrevera uma carta-testamento em que pedia que os filhos fossem educados nos princípios da liberdade, da igualdade e da fraternidade — sabendo que em breve ficariam órfãos («Carta-Testamento de Manuel Buíça», s.d.)Carta-Testamento de Manuel Buíça. (s.d.). República e Laicidade. Obtido https://www.laicidade.org/documentos/documentacao-historica/carta-buica/.

É um documento breve e desarmante. Um homem que planeia assassinar o monarca e, na véspera, pensa na educação dos filhos.
Segundos no Terreiro do Paço.
A escolta foi surpreendida. O cocheiro reagiu e conduziu a carruagem pela Rua do Arsenal, à procura de refúgio. Tarde demais: os óbitos foram declarados no local.
Há algo de desconcertante na rapidez. Segundos. Tiros. Um rei morto, um herdeiro moribundo, uma rainha de pé, na calèche, a tentar acudir aos seus.



O silêncio de um país.
A notícia correu depressa. Chegou às embaixadas, às capitais europeias, às redacções. O mundo reagiu com choque, organizaram-se exéquias, sucederam-se manifestações de pesar. Portugal era, subitamente, o centro das atenções.
Os repórteres despachados para Lisboa encontraram outra coisa.
O director do ABC escreveu que o povo português parecia acolher com total indiferença a morte do seu monarca. O correspondente do Le Matin partilhava o espanto: o luto geral de dois meses parecia cumprido apenas pela alta sociedade e por quem desempenhava cargos oficiais.



Guerra Junqueiro foi mais longe. Numa carta ao jornal Norte, angustiado com a morte do príncipe, lamentava “de olhos enxutos” a morte do rei — e escrevia que não o mataram, que ele se suicidara. Condenava o monarca, recusava a violência, admitia que nunca teria sido capaz de o matar. E, ainda assim, absolvia quem o fez (Junqueiro, 1908)Junqueiro, G. (1908). Carta de Guerra Junqueiro. Transcrição da carta publicada no jornal «Norte». Jornal de Cambra, 2..
É uma frase que resume a ambiguidade moral de uma época inteira.
Não mataram o rei: suicidou-se. O rei era um monstro maléfico, perturbador, consciente de quatro milhões de criaturas. Se eu pudesse matá-lo em segredo, de longe, da minha cama, com o pensamento, não o mataria. Pela verdade, tenho a coragem de acusar. Talvez chegasse, não sei bem, até à coragem de morrer. Matar, não mataria nunca.
Mas “indiferença” talvez não seja a palavra exata, e é aqui que a história fica mais interessante. Porque o mesmo país que não chorou o rei formou longas filas para ver os cadáveres dos regicidas e encheu o funeral de Costa e Buíça, apesar de as autoridades o terem marcado para as primeiras horas da madrugada. No ano seguinte, os jornais noticiavam romagens aos seus túmulos no Alto de São João. Depois da República, a Associação do Registo Civil ergueu-lhes um monumento funerário que os apresentava como libertadores (Samara, 2006)Samara, M. A. (2006, março 6). Regicídio. Connecting Portuguese History. https://connectingportuguesehistory.org/items/show/137.
Não é indiferença. É outra coisa, mais dura de encarar: um país que já não reconhecia os seus reis, e que reservou para os assassinos o luto que não deu às vítimas.
As consequências do regicídio de Lisboa.
Um rei de 18 anos.
D. Manuel II foi proclamado rei de imediato. No diário que começou a escrever logo após o atentado, deixou claro o ressentimento contra João Franco, que lhe garantira por carta que estava tudo sossegado e que não havia nada a recear (Saxe-Coburgo-Gotha, 1908)Saxe-Coburgo-Gotha, M. (1908). Diário de D. Manuel II: Notas absolutamente íntimas..

O primeiro acto do novo rei foi dispensar Franco, que partiu para Paris. Seguiu-se um governo de acalmação: anulação das medidas ditatoriais, libertação dos presos políticos, tentativa de regressar à normalidade parlamentar.
Tarde demais outra vez. A ferida aberta naquela tarde era funda de mais para se fechar com concessões.
O fim da monarquia portuguesa.
O regicídio não derrubou sozinho a monarquia — convém dizê-lo, porque a tentação de traçar uma linha reta entre 1908 e 1910 é grande. Mas acelerou tudo. Matou o rei, matou o herdeiro, queimou o único projeto de reforma que restava e entregou o trono a um rapaz sem base política.
A 5 de Outubro de 1910 foi proclamada a República. D. Manuel II, cognominado “o Patriota”, partiu para o exílio em Londres, onde faleceria em 1932.



Mitos e dúvidas sobre o atentado.
O capítulo monárquico de Portugal encerrara-se naquela tarde soalheira no Terreiro do Paço. Não com pompa, não com glória, nem sequer com revolta popular. Com tiros, silêncio e a estranha frieza de um país que já não reconhecia os seus reis.
Contude, convém separar o que está documentado do que continua em aberto.
Documentado: Costa e Buíça foram os autores materiais, agiram de forma concertada e planeada, e eram republicanos ligados à Carbonária(Samara, 2006)Samara, M. A. (2006, março 6). Regicídio. Connecting Portuguese History. https://connectingportuguesehistory.org/items/show/137.
Em aberto: o número exato de atiradores na praça, a identidade de eventuais cúmplices e, sobretudo, a questão dos mandantes. Relatos da época referem disparos de outros pontos do Terreiro do Paço, e testemunhos posteriores reclamaram participação no atentado — nenhum deles suficientemente sólido para fechar o assunto.
Frequentemente mal contado: que o Partido Republicano organizou o regicídio. A direção republicana em liberdade não aproveitou o momento para proclamar a República, e boa parte dela procurou ativamente distanciar-se do atentado, atenta ao modo como a Europa olhava para esta vaga de assassinatos políticos.
O caso português não foi único: Sadi Carnot, presidente francês assassinado em 1894, Cánovas, primeiro-ministro espanhol (1897), Humberto I, rei da Itália (1900) e William McKinley presidente dos Estados Unidos (1901), são alguns exemplos de que o atentado político era, naquelas décadas, um repertório disponível.
O que desapareceu naquela tarde.
Em 2008, no centenário, foi inaugurada no Terreiro do Paço uma placa em memória do rei e do príncipe, com a fórmula habitual: morreram pela pátria. Pela cidade apareceram, nesses dias, pichagens efémeras com os rostos de Costa e Buíça e uma narrativa de sentido oposto (Samara, 2006)Samara, M. A. (2006, março 6). Regicídio. Connecting Portuguese History. https://connectingportuguesehistory.org/items/show/137.
Cem anos depois, Lisboa ainda não decidira de que lado estava.
Recordo as fotografias de Vila Viçosa. Os sorrisos entre sobreiros, a luz de Janeiro, aquela sensação de segurança aristocrática que atravessa as imagens. Nenhuma delas sugere o que vinha a caminho.
Tudo isso esfumou-se numa tarde.
E o que fica não é a violência — a história está cheia de reis assassinados. É o silêncio que se seguiu, e o barulho que se ouviu do outro lado.